Todos começaram a correr e de repente, já não existia
sentido, tudo de repente ficou sem nexo. O mundo onde eu vivia não era mais o
mesmo, o som da escuridão era alarmador, a minha vida estava sobre um fio. Fui
até o garçom e este com extinto começou a correr.- O que aconteceu? - Gritei apavorado, pois a alegria daquele ambiente tinha ido embora, as pessoas estavam maquiadas de medo, de pavor. Uma voz gritou ao fundo da boate - Corram, Fogo - Desesperado fui ao encontro de Ana fui o mais rápido que pude, ela tinha ido ao banheiro com a Rafaela, que era sua amiga desde o ensino médio. Eu não tinha mais forças, mas minha vontade de nos salvar era maior. Corri feito um guepardo, o mais rápido que pude.
A fumaça estava a vista, o céu já não estava
mais negro com estrelas, estava negro de dor, de medo, de tristeza. Ela vinha
em uma velocidade estrondante, como numa tempestade de areia, e não deixava
amor por onde passava, apenas morte. Corri entre a multidão até o banheiro que
ficava do outro lado da pista de dança. Todos estavam desesperado, era a coisa
mais assustadora que eu tinha visto desde então. Cheguei ao banheiro feminino e
minha Ana já não estava mais lá. Minha mente mostrou várias coisas ao mesmo
tempo, o que pensar naquele momento, tão apavorante de nossas vidas?!
Uma voz gritou novamente, era como sinos
angelicais soando no meio daquela gritaria, era Ana. - Arthur, eu estou aqui. -
Ela estava em cima do balcão do bar a minha procura, ela acenou num gesto, para
que eu me juntasse a ela. Fui sem pensar, mesmo com aquela multidão que corria
e que já estava sofrendo o efeito da nuvem negra que vinha do fundo
da boate. Me debati com uma garota que era da minha sala na faculdade, eu tinha
passado para pedagogia, e lembrei dela, pelo sinal que tinha no rosto em cima
do lábios superior. Ela me olhou profundamente e em seu olhar só vi tristeza e
desespero, tentei ajuda-lá, mas ela saiu correndo em disparada a porta de saída
da boate.
Corri até Ana e segurando na mão dela
corremos juntos em direção a porta de saída da boate. Não foi uma
tarefa fácil a multidão estava pressionada pelo desespero. As
pessoas gritavam desesperadamente - Tá pegando fogo, tá pegando fogo -
Mas o segurança abriu os braços e estava tentando manter a porta fechada.
Uns cinco ou seis caras derrubaram o segurança e colocaram a porta abaixo. Era
a única saída. Sem pensar corremos de mãos dadas em meio a multidão, a fumaça já estava tomando conta de toda a boate, e o cheiro forte e inalante me deixara tonto pouco a pouco. Senti então que a força que unia nossas mãos se desfizera se fraquejava e eu já não sentia a pele de pêssego de suas mãos, era tarde e Ana já tinha se perdido no meio da multidão.
Tentei voltar, a tontura pela fumaça queimava minha garganta, e eu buscava o ar que já parecia estar sendo extinto dentro da boate. Encontrei Ana deitada no chão com ar de desmaio, de fraqueza e senti que aquilo estava acontecendo comigo. Deitei ao lado de Ana e segurei a mão dela, o ar estava a pouco, a fumaça embaçava a minha visão, meu lábios já estavam secos e o rosto de Ana era a única coisa que eu quis ver antes da morte. Apertei sua mão com mais força, e num tom quase ruim disse bem devagar, como se fosse a última coisa que eu dissera a Ana.
- Lembre Ana, eu te amo, para sempre. E com a mente ficando embaçada pouco a pouco, sorri para ela, ela sorriu e nós fechamos os olhos juntos.
A tragédia em Santa Maria (RS) não tem lado bom, mas as pessoas inocentes que morreram tinham histórias, vidas, famílias e sentimentos. Por que não fazer algo para mostrar o que foi, esse pequeno capítulo mostra os últimos minutos de Ana e Arthur( fictícios). A dor só as famílias sabem, mesmo não sendo parente, eu sinto, pois tenho uma coisa chamada coração.
Deus abençoe todas as famílias, e console os corações daqueles que necessitam ;)
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